quinta-feira, 2 de novembro de 2017

sinthoma

O SINTHOMA 


                              

A doença é o tempo que a gente perde a não aprender o que a gente deseja.
Picasso



No dia 13 de outubro de 1935, Sigmund Freud recebe a visita do escritor Thornton Wilder. Conversam durante uma hora e meia sobre vários assuntos e, num certo momento, Freud lhe confessa o desejo de que a psicanálise seja assimilada de tal forma que apareça na ficção como “romance puro”. Lamenta que esse processo talvez dure séculos, pois alguns escritores quando utilizam a psicanálise na ficção tratam-na de forma esquemática, ressaltando sua natureza clínica. Wilder respondeu a Freud que o autor de uma obra cuja escrita faz emergir a psicanálise como “romance puro”, conforme seu desejo, já existe e que se chama James Joyce.
Freud observava com extrema lucidez o avanço da sua idade em conjunção com o agravamento de sua doença. Portanto, não estava brincando ao falar de suas preocupações sobre o futuro da psicanálise. Ele temia que seu legado pudesse se transformar em mais uma ilusão que embalasse o futuro sombrio da civilização que ele via desmoronar no entre-duas-guerras.
            Não sei se existe em algum lugar o registro de que Lacan soubesse do conteúdo dessa conversa de Freud com Thornton Wilder. De qualquer forma, Lacan reconhece no texto joyceano a escrita por excelência. Ao engendrar a sua obra, que revolucionou a história da arte literária, Joyce exibe a trama significante do texto urdida por uma lógica como a lógica do inconsciente. Lacan fica muito bem impressionado pela construção desse texto literário tão próximo daquilo que ele persegue para dizer sobre o real, e, portanto, dedica LE SÉMINAIRE livre XXIII, le sinthome (1975-76), a James Joyce. Nesse seminário, Lacan designa o sinthome como sendo o quarto nó na amarração dos registros do Real, do Simbólico e do Imaginário, e como função de suplência, no caso da psicose. Não posso deixar de dizer que o desejo de Freud foi cumprido ao pé da letra por James Joyce, em seu romance psicanalítico, e por Jacques Lacan, na sua escrita poética da psicanálise.
A psicanálise já nos ensinou que não é preciso que haja a fala, na sua articulação concreta, para que a voz seja ouvida. As vozes dos personagens ou dos narradores em qualquer fato literário são exemplos suficientes da independência da voz em relação à fala, não bastassem as vozes ouvidas pelos loucos. Quem, de fato, conheceu o conteúdo da conversa do escritor com Freud, dela apenas guardou, ou esqueceu o seu valor de informação. Lacan intuiu o valor enunciativo do desejo de Freud, fio condutor de toda sua obra, que nesse pequeno episódio vem a nós como a cair dos céus e nos oferece de bandeja a confissão explícita. Essa conversa, quero dizer com toda a permissão que o chiste promove, foi realmente um papo cabeça. Se São João Batista tivesse tomado dois dedos de prosa com o seu desejo não teria deixado que a sua cabeça tivesse sido oferecida naquela bandeja. Este desvio que traço tentando empoderar João Batista e recolocar sua cabeça no lugar de onde foi decepada, não anula toda a violência praticada pelo Herodes genocida, a serviço do império romano.
A escuta inovadora de Freud libera o sintoma do olhar médico e o faz constituir-se, através da fala, como uma das formações do inconsciente, realizando a própria invenção do psicanalista.
É preciso fazer circular os quatro discursos teorizados por Lacan, em nome de Freud, sob a transferência do saber do inconsciente, para ensaiar a transmissão do que jamais pode ser ensinado fora dos domínios do sinthoma e impulsionado pelo desejo de saber até mesmo o que não se quer ou não se pode saber. O não querer ou/e o não poder fazem parte do conjunto de elementos que ajudam a operar o amor pelo sintoma, o gozo do sintoma e a identificação ao sintoma: manifestações do desejo em sua articulação com a cultura.
O desafio de ler o ilegível cria a tentativa sempre renovada de seguir até o confronto com o impossível de ser analisado, o real, e tentar compreender mais um pouco o que dessa impossibilidade resta como sinthoma no fazer-se falar pelo sujeito através da própria fratura que opera a sua divisão fundamental.

A propósito de Joyce, no Seminário 20, Lacan diz:

É preciso que vocês se ponham a ler um pouco os autores - não direi do tempo de vocês, não lhes direi que leiam Phillipe Sollers, ele é ilegível, como eu, aliás - mas vocês podem ler Joyce, por  exemplo. Ali vocês verão como a linguagem se aperfeiçoa quando se trata de jogar com a escrita.

Sintoma vai, sintoma vem; sintoma é terra de quem quer dizer bem:
O quê?

O sinthoma?

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