O SINTHOMA
A doença é o tempo que a gente perde a não aprender o
que a gente deseja.
Picasso
No dia 13 de outubro de
1935, Sigmund Freud recebe a visita do escritor Thornton Wilder. Conversam
durante uma hora e meia sobre vários assuntos e, num certo momento, Freud lhe
confessa o desejo de que a psicanálise seja assimilada de tal forma que apareça
na ficção como “romance puro”. Lamenta que esse processo talvez dure séculos,
pois alguns escritores quando utilizam a psicanálise na ficção tratam-na de
forma esquemática, ressaltando sua natureza clínica. Wilder respondeu a Freud que o autor
de uma obra cuja escrita faz emergir a psicanálise como “romance puro”,
conforme seu desejo, já existe e que se chama James Joyce.
Freud observava com
extrema lucidez o avanço da sua idade em conjunção com o agravamento de sua
doença. Portanto, não estava brincando ao falar de suas preocupações sobre o
futuro da psicanálise. Ele temia que seu legado pudesse se transformar em mais
uma ilusão que embalasse o futuro sombrio da civilização que ele via desmoronar
no entre-duas-guerras.
Não
sei se existe em algum lugar o registro de que Lacan soubesse do conteúdo dessa
conversa de Freud com Thornton Wilder. De qualquer forma, Lacan reconhece no
texto joyceano a escrita por excelência. Ao engendrar a sua obra, que
revolucionou a história da arte literária, Joyce exibe a trama significante do
texto urdida por uma lógica como a lógica do inconsciente. Lacan fica muito bem
impressionado pela construção desse texto literário tão próximo daquilo que ele
persegue para dizer sobre o real, e, portanto, dedica LE SÉMINAIRE livre XXIII, le sinthome (1975-76), a James Joyce.
Nesse seminário, Lacan designa o sinthome
como sendo o quarto nó na amarração dos registros do Real, do Simbólico e do
Imaginário, e como função de suplência, no caso da psicose. Não posso deixar de
dizer que o desejo de Freud foi cumprido ao pé da letra por James Joyce, em seu
romance psicanalítico, e por Jacques Lacan, na sua escrita poética da
psicanálise.
A psicanálise já nos ensinou
que não é preciso que haja a fala, na sua articulação concreta, para que a voz
seja ouvida. As vozes dos personagens ou dos narradores em qualquer fato literário
são exemplos suficientes da independência da voz em relação à fala, não
bastassem as vozes ouvidas pelos loucos. Quem, de fato, conheceu o conteúdo da
conversa do escritor com Freud, dela apenas guardou, ou esqueceu o seu valor de
informação. Lacan intuiu o valor enunciativo do desejo de Freud, fio condutor
de toda sua obra, que nesse pequeno episódio vem a nós como a cair dos céus e
nos oferece de bandeja a confissão explícita. Essa conversa, quero dizer com
toda a permissão que o chiste promove, foi realmente um papo cabeça. Se São
João Batista tivesse tomado dois dedos de prosa com o seu desejo não teria deixado
que a sua cabeça tivesse sido oferecida naquela bandeja. Este desvio que traço tentando empoderar João Batista e recolocar sua cabeça no lugar de onde foi decepada, não anula toda a violência praticada pelo Herodes genocida, a serviço do império romano.
A escuta inovadora de Freud
libera o sintoma do olhar médico e o faz constituir-se, através da fala, como
uma das formações do inconsciente, realizando a própria invenção do
psicanalista.
É preciso fazer circular os
quatro discursos teorizados por Lacan, em nome de Freud, sob a transferência do
saber do inconsciente, para ensaiar a transmissão do que jamais pode ser
ensinado fora dos domínios do sinthoma
e impulsionado pelo desejo de saber até mesmo o que não se quer ou não se pode saber.
O não querer ou/e o não poder fazem parte do conjunto de elementos que ajudam a
operar o amor pelo sintoma, o gozo do sintoma e a identificação ao sintoma: manifestações
do desejo em sua articulação com a cultura.
O desafio de ler o ilegível cria
a tentativa sempre renovada de seguir até o confronto com o impossível de ser
analisado, o real, e tentar compreender mais um pouco o que dessa
impossibilidade resta como sinthoma no
fazer-se falar pelo sujeito através da própria fratura que opera a sua divisão
fundamental.
A propósito de Joyce, no
Seminário 20, Lacan diz:
É preciso que vocês se
ponham a ler um pouco os autores - não direi do tempo de vocês, não lhes direi
que leiam Phillipe Sollers, ele é ilegível, como eu, aliás - mas vocês podem
ler Joyce, por exemplo. Ali vocês verão
como a linguagem se aperfeiçoa quando se trata de jogar com a escrita.
Sintoma vai, sintoma vem; sintoma é terra de quem quer dizer bem:
O quê?
O sinthoma?